terça-feira, 6 de março de 2012

A saúde pública vai mal em Varginha



 “Ah! Quanta espera, desde as frias madrugadas, pelo remédio para aliviar a dor! Este é teu povo em longas filas nas calçadas, a mendigar pela saúde meu Senhor!”

O trecho acima faz parte da Campanha da Fraternidade deste ano, cujo mote central é a saúde pública. O problema da saúde pública em Varginha, bandeira de campanha eleitoral em duas eleições municipais, não surtiu os efeitos desejados, ficando com índices bem abaixo de cidades da região. Lamentável, porque nestes dois períodos tivemos como prefeitos, profissionais ligados especificamente na área de saúde.
Entrarmos no mérito da questão em Varginha torna-se difícil. Pois, todos sabem que os maiores problemas surgidos nas duas administrações petistas foram justamente as questões ligadas ao atendimento médico hospitalar nas competências municipais, como exemplo o pronto atendimento.
Fazendo referências somente ao setor público, vivemos diversas situações com reclamações de todos os envolvidos, chegando a tal ponto de ser necessária a criação pela Câmara Municipal de se fazer uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito), para tomar conhecimento das precárias condições de funcionamento, inchaço do quadro de funcionários, não capacitados para as funções exercidas, empreguismo, má administração, péssimo atendimento, e o consumo de muitos milhões de reais por parte do poder público.
Varginha, no geral, dispõe de um dos maiores centros de saúde da região e do Estado, com referência em todos os segmentos da moderna medicina, nas mais diversas especialidades clínicas. Com todo esse patrimônio, que faz de nossa cidade tão reconhecida na saúde, deveríamos também ter por parte do poder público tantos outros instrumentos facilitadores da vida para a comunidade mais humilde, que infelizmente não dispõe de recursos privados.
O balanço do Ministério da Saúde vem colocar em discussão os resultados, divulgados na última quinta-feira (01), que indica nossa cidade abaixo de quase todas as cidades da região, que não dispõem da mesma estrutura.
Varginha obteve 5,61 pontos na avaliação do Ministério da Saúde [Governo Federal], que vai de 0 a 10. Para se chegar a estes dados foram adotados Índices de Desempenho do Sistema Único de Saúde (IDSUS), esses indicadores serviram para avaliar o acesso de serviços à saúde na atenção básica, ambulatorial, urgência e emergência, exames clínicos, partos, doenças curadas. Também foram consideradas as infraestruturas de saúde oferecidas à população.
Difícil encontrarmos uma cidade de longa data, com um número elevado de postos de saúde, em quase todos os bairros, Hospital Regional e um grande hospital municipal, com pronto socorro e atendimento. Sempre contando com grandes investimentos dos governos Federal e Estadual, e também com as dotações orçamentárias obrigatórias locadas anualmente. Como Varginha pode ficar abaixo da média na região?
Tudo fica claro que não existiu e nem existe um modelo de gestão específico, para administração de uma questão vital, e nem conhecimento dos gestores em serviços de saúde pública. O que causa, então, impossibilidade aos mais necessitados de atendimentos médicos, medicamentos e internações.
Com este resultado apresentado pelo Ministério da Saúde, só nos resta no momento repetirmos o desabafo do jornalista e advogado Daniel Simão:

“Oh, meu Brasil...
Estou envergonhado.
Cabisbaixo.
 Taciturno.
Completamente preso às minhas mais angustiantes reflexões.
Não vejo luz no fim do túnel.
Sou refém da revolta.
Da impotência.
Do descaso.
Sou sobrevivente morto neste país de desiguais.
Gladiador solitário.
Um exército inerte.
Tristeza e desalento ao mesmo tempo.
Grão de areia no sistema absurdo.
 Observador perplexo da estupidez, do mau-caratismo, da insensatez humana.
 Sou o medo da mulher indefesa presa numa cela com homens; Sou a dor e o desespero do índio ao sentir as chamas lhe tomarem o corpo.
Sou o sangue coagulado nos olhos do homossexual agredido, ou as costelas quebradas da doméstica espancada gratuitamente.
Vejo-me nos olhos da criança carente ou do deficiente físico que me pede trocados na rua.
Sinto as balas perdidas me perfurarem os tecidos e atingirem o coração.
 Sou o voto jogado fora nas urnas.
A corrupção desenfreada. [...].
O arroz com feijão que falta na mesa do almoço.
Sinto a fome, a sujeira que me cobre o corpo, a doença que me come as vísceras.
 Sou um garoto e, dias depois, pedaços humanos, restos mortais resultantes da mutilação advinda do atrito do meu corpo com o asfalto.
Sou o pai que passa a mão na cabeça do filho delinqüente.
 A mãe carente grávida do sexto filho.
Sou o traficante todo-poderoso.
O drogado e o policial dos ambientalistas amazônicos.
O último suspiro de vida do ser humano nas filas do SUS.
Vejo o preconceito e o desemprego.
Sou as lágrimas do povo.
 Os seus anseios.
A esperança esquecida.
 Os ‘por cento’ dos juros, e os impostos governamentais.
Não tenho educação.
Saúde? Só a que Deus me deu.
Sou cego e não sei ler.
Sou surdo e não posso ouvir.
Enxergo e gostaria de nada ver.
Mas vejo.
Vislumbro.
 Percebo.
 Compreendo.
 Uso as palavras.
Preciso me expressar para curar o incurável.
Faço parte da tropa alienada.
Sou seu comandante passível e medroso.
O seu soldado dorminhoco.
Sou o cão de guarda dócil.
O pateta assumido.
O filho que foge à luta.
A ordem, desorganizada, e o progresso inexistente.
Sou o Brasil do muito para poucos e do pouco para muitos”.   

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