terça-feira, 10 de julho de 2012

Um ano sem Itamar


Artigo do senador Aécio Neves

Publicado no jornal Hoje em Dia – 07-07-12



Itamar não foi um político comum, talvez mesmo porque preferisse ser sempre visto como homem comum. Engenheiro, ele foi atraído pela vida pública ao trabalhar em saneamento, tanto para o Departamento Na­cional de Obras contra as Secas (Dnocs), quan­to para a Prefeitura de Juiz de Fora. Ao ver, de perto, o sofrimento dos moradores das áreas castigadas pela estiagem e a população da peri­feria de sua cidade, ltamar entendeu que a solidariedade necessita de poder, para que pos­sa ser plenamente exercida. Foi assim que se tornou vereador, prefeito de sua cidade, sena­dor, vice-presidente e presidente da República, governador de Minas e, mais uma vez, e por poucos meses, novamente representante de nosso Estado no Senado Federal.

Ele tinha a nítida consciência da autoridade que exercia, em nome de seus eleitores, mas não se deixava enlevar pelos ritos circunstanciais do poder. Nisso, ele seguia o evangelho político dos mineiros, que costumam ser corteses no relacio­namento social e político, mas severos na defesa do interesse público. Itamar não se conduzia pe­las conveniências do momento, e expunha suas posições políticas com absoluta franqueza. Isso lhe trouxe algumas dificuldades menores, mas assegurou a solidez de sua biografia.

Fomos aliados firmes, durante os seus últi­mos anos de vida. Tive o privilégio de herdar a relação leal que ele sempre manteve com meu pai, Aécio Cunha, durante quase toda a vida.

Havíamos nos distanciado, e foi natural que isso ocorresse, nas eleições de 1989, quando ele se candi­datou a vice-presidente na chapa de Fernando Collor, e eu mantive a minha fidelidade ao PSDB e ao nosso candidato Mário Covas. Mas é preciso reconhecer que se Itamar não tivesse, como vice-presidente, assumi­do a chefia do país, naquelas circunstâncias difíceis, com a crise de confiança no governo, o desfecho poderia ter sido outro, e muito grave.

Com modéstia, senso comum, e o inexcedível zelo para com o patrimônio público, Itamar recuperou, em poucas horas, a confiança nacional nas institui­ções, organizou um governo coeso e, com coragem, assumiu os riscos necessários, sobretudo na decisão de realizar reforma monetária ousada, imposta pela necessidade de interromper processo hiperinflacio­nário que nos teria levado ao caos econômico e, provavelmente, à insegurança política.

Nos reencontramos em 2002, quando ele me convocou a assumir a candidatura a governador de Minas. E a partir de então, estabelecemos uma convivência de respeito e amizade que me marca­ria de forma definitiva.

Por onde passou, hamar deixou aos brasileiros diferentes legados. O principal deles é que não há incompatibilidade entre política e ética; política e honestidade; política e honra.

Nenhum comentário:

Postar um comentário