Editorial: Os 23 de Felipão
"A vitória era a salvação. Só ela trazia a alegria, a alegria que tomava a forma do gozo, bem brasileiro, brasileiro como o futebol." Assim o jornalista Mario Filho, em "O Negro no Futebol Brasileiro", descreveu o ambiente que cercava os primórdios desse esporte nos clubes fluminenses no início do século 20.
Já então os jogadores, embora não profissionais, entravam em campo com a imensa responsabilidade de realizar os desejos de uma torcida que não admitia derrotas.
Aquele peso aumentou com o passar dos anos e tornou-se insuportável em 1950, quando a seleção canarinho pisou no Maracanã lotado para a final da Copa do Mundo. A frustração pelo fracasso diante do Uruguai foi tamanha que alguns atletas jamais se sentiram perdoados pela população.
É inevitável: esse fardo –histórico, esportivo, social– os 23 atletas convocados ontem por Luiz Felipe Scolari terão de carregar na esperada caminhada de sete jogos, cujo clímax seria um desfecho no mesmo palco, reformado especialmente para essa ocasião.
Espera-se que a inexperiência em Copas desse grupo de resto forte não constitua um obstáculo a mais no percurso em direção à alegria, ao gozo, à desforra. Se é imensa a expectativa em relação ao que ocorrerá nos gramados, não é menor a intensidade dos questionamentos fora de campo.
Críticas ao esbanjamento "padrão Fifa", por exemplo, fizeram despencar o apoio à realização do Mundial, em abril restrito a 48% da população. Além disso, 55% creem que sediar o evento trará mais prejuízos do que benefícios.
Dos 23 de Felipão, apenas quatro vivem esse "espírito do tempo" nacional. Os demais 19 atuam em clubes estrangeiros –muitos dos quais deixaram o país antes dos 21 anos. Nada disso importou à torcida que, na Copa das Confederações, entrou em vibrante sintonia com os jogadores nos estádios.
Pela alegria que representará a vitória, apesar dos pesares que envolvem este Mundial, a maioria dos brasileiros deseja a repetição da bem-sucedida campanha do torneio de junho passado.
O governo federal –e todos os políticos em cargos eletivos, de certa forma– também quer o título, mas seu cálculo é puramente instrumental. Sem que tenha cumprido as promessas de deixar um legado de infraestrutura e mobilidade urbana como contrapartida, a gestão Dilma Rousseff (PT) investe no bordão "Copa das Copas".
A fórmula, que não encontra respaldo na realidade, dificilmente terá lugar no imaginário popular se o desempenho dos jogadores render nova frustração.
Por motivos diversos, até contraditórios, não são poucos os que desejam a vitória como salvação.
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