O mensalão é apenas uma parte - e uma
das menores, hoje se sabe - do plano de assalto ao Estado protagonizado
pelo condomínio que o lulopetismo instalou no poder em 2003. Assim, dez
anos passados daquele famigerado escândalo, que mobilizou o País por
vários meses e terminou com a prisão de um punhado de réus poderosos,
fica muito claro que o episódio não passou de um esquema marginal dentro
de uma sofisticada estrutura montada para rapinar bens públicos, em
escala nunca vista na história brasileira.
Portanto, pouco há a comemorar, pois, com o mensalão,
se foi rompida parcialmente a lógica da impunidade, nenhuma página foi,
de fato, virada. A cada nova descoberta das autoridades policiais e
judiciais no caso do petrolão e de outros esquemas comprova-se que nada,
nessas investigações, pode ser tomado de forma isolada. Todos esses
escândalos são, na verdade, um só - o escândalo de uma quadrilha que
transformou partidos políticos em máquinas para exaurir os recursos do
Estado de diversas maneiras, em favor de projetos pessoais e de poder de
seus dirigentes.
O mensalão chegou ao conhecimento público com esse nome em
junho de 2005, graças a acusações feitas na ocasião pelo então deputado
petebista Roberto Jefferson. Segundo o parlamentar, o então tesoureiro
do PT, Delúbio Soares, pagava mesadas de R$ 30 mil a deputados do PL e
do PP em troca de apoio no Congresso.
Como costumam fazer sempre que são acuados por denúncias, os
petistas reagiram insultando a inteligência dos brasileiros. Em nota
oficial, garantiram que o relacionamento do PT com os demais partidos da
base aliada se assentava “em pressupostos políticos e programáticos”,
descartando qualquer forma de corrupção.
Com o passar do tempo e o surgimento de evidências de um crime
muito maior do que o denunciado por Jefferson, a narrativa petista foi
mudando. Primeiro, quando sua reeleição parecia sob ameaça, o então
presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, se disse “indignado” e afirmou
que o PT precisava “pedir desculpas”. Nessa mesma toada, Delúbio admitiu
que as campanhas eleitorais do partido usaram “recursos não
contabilizados”, mas os petistas, Lula inclusive, atribuíram essa
prática a um mero esquema de caixa 2, do qual, segundo essa versão,
todos os partidos lançam mão.
Quando ficou evidente que o Brasil estava diante de “um dos
episódios mais vergonhosos da história política de nosso país”, como o
qualificou o ministro Celso de Mello, decano do Supremo Tribunal
Federal, em seu histórico voto pela condenação desse “grupo de
delinquentes que degradou a atividade política”, os petistas passaram a
se dizer vítimas de um “julgamento de exceção”.
Desde então, os documentos produzidos pelo partido para reagir
às seguidas denúncias de malfeitos - como os petistas apelidaram crimes
capitulados em lei - respeitaram a gramática da vitimização. A palavra
“golpe” passou a ser usada profusamente pelos dirigentes petistas,
inclusive, e em mais de uma ocasião, pela presidente da República, Dilma
Rousseff. Junte-se a isso a cantilena de que os escândalos só vêm à luz
porque o governo petista permite que sejam investigados, como “nunca
antes na história deste país”, e tem-se uma impostura completa.
Digam o que disserem os líderes petistas, porém, vale o que está nos
autos do mensalão - e lá está claro que o PT transformou os ganhos
oriundos da corrupção na própria razão de ser de sua prática política.
Os escândalos depois desvendados são consequência dessa opção.
Nos dez anos do mensalão, e atordoado diante da constatação de
que ainda estamos longe de conhecer a totalidade dos malfeitos
cometidos nesse período, o País já percebeu que os governos lulopetistas
são verdadeiras caixas-pretas, a guardar sombrios segredos, escondidos
pela blindagem do populismo e da demagogia, que transforma os críticos
do modus operandi petista em inimigos dos pobres. Nem o mensalão nem o
petrolão são capazes de resumir essa história de corrupção e desfaçatez
da qual, infelizmente, temos apenas um pálido vislumbre.
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