"Eles não são intocáveis!"
Carlos José Marques, diretor editorial
Imagine você não gostar da autoridade que lhe investiga e, por esse critério, poder decidir que não vai depor quando convocado. Imagine-se imbuído do direito de escolher o ministro da Justiça mais adequado às suas conveniências pessoais e dotado da força para destituir ao bel prazer aquele que lhe contrariou por deixar prender um dos seus mais diletos amigos – ainda que por justificadas provas de irregularidades cometidas. No desmedido impulso tirânico você poderia ainda convidar para o lugar desse ministro alguém capaz de “enquadrar a PF” e evitar que a polícia cometa o supremo “abuso” de averiguar suspeitas de favorecimento que pesam contra a sua pessoa.
Não importa a autonomia que a Carta Magna garante as instituições
em sociedades democráticas como a brasileira. Prevalece apenas e tão
somente a sua absoluta vontade de ditar os rumos, estabelecer o certo e o
errado, conceder e retirar autoridade a aliados e detratores. Mortais
comuns não podem contar com tais regalias. Já petistas de alta patente
como Lula e Dilma demonstram compartilhar desse pensamento e, por isso
mesmo, levaram às raias do insustentável as pressões para que José
Eduardo Cardozo deixasse a pasta da Justiça na semana passada, na mais
escrachada demonstração de que querem castrar a liberdade dos
investigadores e esvaziar a Lava Jato – hoje convertida na grande
esperança de resgate moral da sociedade.
Cardozo foi sumariamente ejetado da pasta por adotar o princípio
republicano de resistir a interferências indevidas na PF. Lula não
estava gostando nada das apurações que o apontam como beneficiário de
empreiteiras em obras e “presentinhos” nos dois imóveis destinados a
usufruto familiar. Também torcia o nariz para o que considerava “falta
de pulso” do ministro. Fez gestões para detoná-lo assim como partiu para
cima de magistrados e procuradores, acusando-os publicamente de
perseguição. Fez mais: mandou seus advogados avisarem que não iria
prestar depoimento na condição de investigado, desqualificando o
interpelante e afrontando um membro do Ministério Público.
Dilma, por sua vez, ficou absolutamente possessa – segundo relatos
de assessores próximos – quando soube da prisão do marqueteiro e
confidente João Santana. Foi o suficiente para selar o destino de
Cardozo. O ego exacerbado e uma indisfarçável sensação de pairar acima
da lei parecem mover Lula, em especial. Na festa de aniversário do seu
partido, na segunda-feira 29, ele explodiu aos berros: “estou de saco
cheio”. Referia-se ao Ministério Público, à Polícia Federal e à
imprensa. Em resumo: todos que, acredita ele, estão mancomunados para
manchar sua reputação. A avalanche de evidências e os depoimentos dando
conta de que recebeu vantagens, inclusive no cargo de presidente, seriam
detalhe.
Não valem no seu discernimento. Lula se considera um cidadão
especial, um messias intocável, ora ignorando os fatos ao redor, ora
convertendo em meras intrigas da oposição os atos desabonadores dos
quais é acusado. Com essa postura não convence nem mais a própria
militância e desaba nas pesquisas de opinião. O líder de massas, o
onipresente detentor da “alma mais honesta deste País” se furta a dar
explicações. Prefere atacar com impropérios. Intimidar com ameaças.
Tripudiar. Posar de vítima “das elites” e instigar chicanas que adiem
seu confronto com a justiça.
Até quando? Ao invés desse teatro de subterfúgios, pedalando na
defesa e escondendo os pedalinhos como benesses corriqueiras, Lula
deveria reunir argumentos consistentes para responder aos juízes, a quem
chama de “acovardados” – como a confundir tribunais com uma peleja
futebolística de onde pode xingar quem zela pelas regras. Do contrário,
deve parar atrás das grades. Lula não é intocável, como também não o é
sua sucessora e discípula, Dilma. A presidente, cada vez mais
encalacrada, cede às injunções desabonadoras do PT. Entrou em “modo de
negação”. Desistiu de governar.
A cada dia, a cada nova confissão de executivos presos e de
políticos que lhe cercam, vai demonstrando que teve conhecimento, se
beneficiou diretamente e em vários momentos participou de forma ativa do
gigantesco esquema que deu sustentação a seu mandato com desvios e
falcatruas de toda ordem. O bombástico depoimento do senador petista
Delcídio do Amaral à polícia, publicado com exclusividade por ISTOÉ
nesta edição, dá claras evidências de que Dilma Rousseff incorreu em
crimes de responsabilidade que deveriam levar a sua imediata deposição.
Pelo Congresso e pela justiça.
Para a grande maioria dos brasileiros é anacrônico o País seguir
nessa rota de desmandos indefinidamente. A presidente já perdeu as
condições de dirigir a Nação, como atestam as delações premiadas,
escancarando a farsa petista para se garantir no poder. Não há como ser
indulgente com ilícitos, nem impassível diante da ladroagem endêmica. A
continuar nessa toada, com caixa dois de campanha, articulações para
manter salafrários em estatais e toda sorte de pilhagem, a moral do País
vai virar pó. É preciso um basta à depravação política.
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